domingo, 4 de abril de 2010

MEMÓRIA CREPUSCULAR


Com o final da tarde se aproximando, ele sentou próximo da janela a fim de ver o tempo passar, naquele mesmo tédio de sempre. O céu já demonstrava indícios de que a noite chegava, o brilho solar se esvanecia em tons de cobre, a brisa vespertina aplacava o calor quase insuportável daqueles dias e desde muito cedo se tornara possível ver a lua. O espetáculo crepuscular transcorria bem ali, diante de seus olhos que tão cansados de ver sempre as mesmas coisas se deleitava com a possibilidade de enxergar algo novo naquele evento diário, mas nunca idêntico. É que as pessoas pensam que o céu tem uma cor uniforme, mas ele sabia que a coloração celeste variava na medida em que se passam os instantes, ouvira alguém dizer, ou lera em algum livro antigo que a cada hora o céu adquire um tom diferente, muito embora os homens apressados em sua corrida diária contra o tempo não possam perceber tal encanto natural. Foi nesse instante que se lembrou de Borges e o pôr-do-sol doeu no fundo de sua alma.

As recordações do passado, tão presente até pouco tempo, lhe apareciam como flashes de luz, como delírio, como se não passasse de um sonho já tão distante, porém despertavam-lhe ainda aquelas sensações de descoberta e estranhamento de antes, como quando descobrimos alguma novidade que nem sabíamos ainda podia haver depois de achar ser conhecedor do mundo. Aquele sentimento familiar incomodava-o como espinha presa na garganta e o preocupava a ponto de querer extirpar-lhe por completo. Foi quando se deu conta de que, na verdade, tudo era passado e já não precisava se incomodar tanto. “A vida anda pra frente”, pensou enquanto degustava um gole daquele vinho barato que estava, há muito, na sua geladeira, guardado para quando tivesse a companhia de ternos amigos que compartilhassem sua mesma dor.

Estes tão raros amigos, porém tão queridos, encontravam-se por aí dispersos no mundo a construir caminhos que, embora os afastassem fisicamente, poderiam tornar a uni-los numa bela tarde, num futuro bem próximo ou quem sabe longínquo, numa praça qualquer, onde as lembranças seriam apenas uma desculpa a mais para o reencontro daqueles que, na verdade, nunca ficam satisfeitos com a distância. Então o pôr-do-sol que, às vezes, o machucava com seu espetáculo dourado-sangue – declaração de morte do dia – que na solidão ou no abandono trazia à luz um tom melancólico e triste, poderia aquecê-los novamente.

Emilson Lopez – 01/04/2010

2 comentários:

  1. meu unico cometario é: que texto perfeito...se eu falar mais coisa estraga.

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  2. OBrigado Quel!!! Tava inspirado nesse dia hehehe!

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