sexta-feira, 26 de março de 2010

A CASA DO INCESTO


“Não amo nada para além desta ausência de dor, neutra e fria ausência de dor.” (...)
Recomendo a obra da escritora Anaïs Nin para tod@s que ainda conseguem sentir a vida, com seus prazeres e dores para além do espetáculo pornográfico vazio que se tornaram as relações entre os amantes e consigo nos nossos dias. Emilson Lopez

“Parte-se o desejo que tinha esticado os nervos e cada nervo parece partir-se um por um, em cadeia, provocando incisões, onde ácido corria em vez de sangue. Torço-me dentro da minha própria vida, à procura de um caminho livre para as lágrimas fundidas, para dissolver o sofrimento num caldeirão de palavras onde todos os que procuram nomes para o seu próprio sofrimento pudessem cair. Que enorme caldeirão estou nesta altura a mexer; grandes bocarras estou agora a alimentar de ácido, palavras suficientemente amargas para queimarem toda a amargura”.(...)
“Flutuo novamente. Todos os factos, as palavras, todas as imagens, os presságios me sobrevoam e troçam uns dos outros. O sonho! O sonho! Sempre que pretendo traí-lo o sonho atravessa-me como o som de um sino gigante de cobre. Roça-me como asas de morcego assim que abro os olhos humanos e procuro viver fora do sonho. Sempre que o sofrimento humano me atinge e a raiva me corrói, necessito, necessito sempre depois de crucificada, no terror da minha ascensão. A partida divina. A queda. Depois do choque doloroso a queda no escuro e depois do sofrimento a partida divina”.(...)
“Estou presa na engrenagem das minhas mentiras, e quero absolvição. Não posso dizer a verdade por ter sentido as cabeças de homens no meu peito. A verdade seria condição de morte e eu prefiro os contos de fadas. Estou embrulhada em mentiras que não me penetram a alma. Como se as mentiras que digo fossem vestes. A concha-mistério pode durante a noite quebrar e crescer novamente. Mas no momento em que entro na conversa das minhas mentiras caio na escuridão. Vejo um rosto que me olha com olhar vesgo”.(...)
“Engulo as minhas próprias palavras. Rumino e rumino tudo até que se deteriore. Cada pensamento e cada impulso é mastigado até que se transforme em nada. Quero controlar todos os meus pensamentos de uma vez, mas eles fogem em todas as direcções. Se o conseguisse seria capaz de capturar os espíritos mais subtis, como um cardume de pequenos peixes de água doce. Poderia revelar inocência e duplicidade, generosidade e cálculo, medo, cobardia e coragem. Pretendo dizer toda a verdade e não consigo dizer toda a verdade porque, para isso, teria de ser capaz de escrever quatro páginas simultaneamente, quatro longas colunas simultâneas, quatro páginas resultando numa, e essa é a razão porque não escrevo nada. Teria para isso de escrever em reverso, voltar atrás constantemente para agarrar os ecos e os acordes”.(...)
“nasci sem pele. Um dia sonhei que estava nu num jardim e que cuidadosa e completamente me tiravam a pele como a um fruto. Não ficou nem um resto de pele no meu corpo. Foi toda mas toda retirada com cuidado e só depois me disseram para andar, viver e correr. A princípio movimentei-me devagar, o jardim era tremendamente macio e eu sentia de uma forma precisa o jardim-doçura, não na superfície do corpo, mas atravessando-me o ar doce e os perfumes, como agulhas penetrando todos os meus poros em sangue. Todos os poros estavam abertos e respiravam calor, doçura e cheiros. O corpo totalmente invadido, penetrado, reagindo, a mais pequena célula e poros vivos respirando e tremendo com prazer. Gritei de dor. Corri. E ao correr o vento chicoteava-me e as vozes das pessoas eram chicotes dirigidos a mim. Ser tocado! Acaso sabem vocês o que é ser tocado por um ser humano?”
–A casa do incesto – Anais Nin

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