terça-feira, 9 de março de 2010

DOS ESTADOS DE UMA ALMA


Estava farto do vazio: Cansado mesmo das palavras e sentimentos de culpa que atormentavam sua mente tão jovem. Resolveu despreocupar-se. Abriu mão das coisas estúpidas que antes o incomodariam absurdamente e se deixou levar pela maré. Talvez, algo de bom viesse com o tempo, no balanço das ondas, afinal quem foi que disse que a felicidade não chega por conta própria? Pode ser que ela caminhe com as próprias pernas e , um belo dia, bata a nossa porta pedindo abrigo, sem que tenhamos que nos desesperar, nos esforçar e sofrer para abraçá-la. Estava decidido: Agiria sem pensar. Não era, porém, sua conduta padrão esquecer intencionalmente de medir as conseqüências de seus atos. Talvez por isso não compreendesse como eram capazes de viver algumas pessoas, que seguem sem a ilusão de controle sobre os fatos da vida, sem a idéia vã de que amanhã será assim, ou, assado.
Estava tudo muito quieto: era madrugada. O silêncio perturbava-o como nunca, por isso sentia-se aliviado quando passavam carros pela rua dando a impressão de que havia mais alguma viv’alma que vagava como ele insone e sem rumo. Apanhou o velho caderno que ficava guardado sempre na mesma gaveta da escrivaninha. Rabiscou algumas linhas sem planejar, como um teste de sua nova conduta e alimentado, ainda, pela esperança de ter insights criativos. Porém, não conseguia ser poético e isso o deixava deprimido.

Estava com sede: Fazia calor. Levantou-se e foi até a cozinha, abriu a geladeira e por um instante permaneceu ali parado, sem pensar na vida nem na morte, um breve instante de vivência vegetativa. Ele quase se sentiu bem com isso, uma completa falta. Voltou para o quarto e de súbito achou que tudo era inútil. Quem leria os seus livros? Que diferença faria aquela vidinha rotineira e os escritos banais? O calor sufocava. Abriu a janela. Era noite , havia poucas nuvens e a lua não estava cheia. Sentiu uma brisa leve invadir o quarto. Fechou os olhos e quando tornou a abri-los se deu conta da beleza fugás de estrelas cintilantes. Aquela luz atravessa o espaço sideral muito tempo depois da extinção real do astro que a irradiou – pensou – mas isso não se aplica aos homens - concluiu. Contudo, acima de qualquer consideração a noite estava bonita, simplesmente, e por essa única razão, tão descabida mediante sua constante angústia, o calor infernal que fazia e a falta de sentido, resolveu dedicá-la algumas linhas sem grandes pretensões. Estava satisfeito em ser um mero (d)escritor do céu. Estava feliz?


Emilson Lopez

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