sábado, 29 de janeiro de 2011

NA CIDADE DOS SENSATOS – Parte 2. A CHUVA



No retorno pra casa, já cansado depois das desventuras de sempre, nosso anti-herói dormiu quase que instantaneamente ao jogar-se ainda vestido sobre a cama desarrumada. O leito encontrava-se do jeito que ele o tinha deixado ao levantar-se na manhã anterior. É que logo cedo era tomado por uma preguiça descomunal e por essa razão não havia feito como estava prescrito nas regras de quem não suporta a desorganização e o desleixo e arrumado a cama. Voltando ao despertar de nosso amigo, ele acordou meio atordoado, havia certa confusão nos corredores. Levantou-se com calma e reparou que ainda vestia as mesmas roupas sujas do dia anterior, mesmo assim, ainda sonolento, foi tentar entender o que se passava na casa.
Os familiares moviam os móveis de lugar para não danificar as frágeis madeiras de que eram feitos e por pensar que ainda havia algumas prestações a serem pagas pelos mesmos. Ele viu que havia uma infiltração na parede e só então percebeu que chovia lá fora, uma chuva forte e densa. Por vezes relampejava como só tinha visto em filmes e a manhã de tão escura se assemelhava ao crepúsculo de um dia triste e cansado. A chuva sempre lhe trazia sensações estranhas, certo arrebatamento que o levava em direção a uma melancolia sem explicação, uma vontade de nada que lhe agravava em muito a preguiça, mas não era igual a essa. A vontade de nada era como que um sentimento que causava certo desconforto e ao mesmo tempo um prazer, não era como se tivesse obrigações que não cumpriria, era como se tudo não fizesse o menor sentido, não importasse, tanto fizesse, e o pensamento simplesmente vagasse sem rumo por entre lembranças, arrependimentos e saudades e aquilo tudo parecesse ser a vida de um estranho, como que a história de um filme que não saia da cabeça. Era um sentimento de vazio. Nesses dias ele sabia que no máximo leria algumas paginas do livro que não conseguira terminar ainda, ouviria alguma musica antiga e comeria alguma coisa quente, mas só um pouco, por que afinal de contas de que adianta comer? Queria mesmo era observar a chuva cair, sentir o frio na ponta dos dedos e ficar largado no sofá a olhar vez pra janela, vez para o teto a contar os caibros velhos corroídos pelo cupim.
Introspecções a parte, pensou que a água escorrendo parede abaixo com certeza deixaria uma marca nas paredes antigas da casa onde vivera desde suas lembranças mais antigas de infância, mas isto não perturbou sua cabeça de imediato. Os danos que a tempestade causaria a velha casa não eram problema seu, via aquilo como se fosse um espectador de sua própria vida. Por fim, analisando a situação e percebendo que nada poderia fazer, já que as medidas necessárias já haviam sido tomadas sem sua presença, dirigiu-se a cozinha para tomar café.
Sentado a mesa parou por um instante para observar a xícara branca com café preto. Ao por na boca o líquido quente sentiu um gosto amargo como aquele das piores decepções. A ressaca atacou de súbito, sentiu uma puta dor de cabeça e do nada se deu conta que se importava com as coisas, com as paredes, que de uma forma ou de outra guardavam nas camadas de tinta, tantas vezes retocada, sua própria história. E ficou ali, sentado a mesa, degustando lembranças das coisas vividas ali no seu endereço sabido de cor, no seu refúgio, no seu lar doce lar. Apesar de tudo, nada faria pelas paredes em si, não adiantaria. Suas possíveis atitudes não fariam  parar de chover e, além do mais, a chuva sempre lhe trazia sensações estranhas, certo arrebatamento que o levava em direção a uma melancolia sem explicação, uma vontade de nada que lhe agravava em muito a preguiça, mas não era  igual a essa. E ele gostava disso.

Emilson Lopez

Segue aqui o link do post referente a primeira parte dessa, por assim dizer, estória:
http://insanidadesalucinogenas.blogspot.com/2010/04/na-cidade-dos-sensatos-1-cigarros.html 

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